18 de nov de 2011

Aquelas coisas que a gente não diz


Eu bem que podia tentar te impressionar. Dizer que sou uma pessoa bem agradável, amorosa, gentil, bonita e fina. Também podia te contar todas as coisas legais e incríveis que faço diariamente. E podia relatar todas as "bondades" que fiz ao longo dos meus trinta e um anos. Podia, mas não vou.
Não sou de me gabar, pelo contrário. Tenho tanta vergonha que você nem imagina. Quando encontro na rua alguém que me lê e diz ei-você-é-a-fulaninha eu fico num tom vermelho-peguei-insolação-na-praia e me dá uma vontade louca de cavar um buraco, me enfiar e só sair na próxima encarnação. Não sei me comportar em lançamento de livro: sinto suadores de origem desconhecida, minha letra fica tremida e feia no autógrafo e definitivamente fico constrangida quando alguém olha no meu olho e diz que gosta do meu trabalho. Alô? Todo mundo quer ser elogiado, certo? Todo mundo quer ser reconhecido, certo? Eu também quero, mas não sei lidar direito com isso. Fico com vergonha, sei lá. Isso lembra o tempo em eu fazia redações na escola e tinha que ler em voz alta. Que vergonha. Isso lembra os trabalhos em grupo. Que vergonha. Isso lembra os trabalhos individuais na faculdade. Que vergonha. E daí fico vermelha. E sou branca. E fico uma branca vermelha. E algum filho da mãe diz ei-tá-vermelha. E eu fico mais e mais vermelha. E o vermelho parece que vai explodir junto comigo, de tão vermelho que fica.
Eu podia te contar muitas mentiras, mas não quero. Não sou nada racional. E, olha, não sei ser objetiva. Enrolo uma vida para falar uma coisa simples. Dou um montão de voltas até chegar no ponto principal. Sempre me perco. Sempre me bato nas coisas, por isso vivo roxa. Ligo sem nenhum motivo aparente, só por ligar, só pra não dizer nada. Sinto raiva. E na hora da raiva falo coisas que nem acredito depois. Fico cega, cegueta mesmo. E depois me arrependo, peço desculpa, tento engolir o que falei. Minha tê-pê-ême é violenta, sou capaz de matar uma pessoa. Fico descontrolada. E com medo de mim. Furo em festas. Digo que vou, marco hora e não apareço. Não gosto de atender telefone quando estou vendo a novela. E às vezes eu me escondo das pessoas. Explico: tem dias que vou almoçar no shopping e vejo um conhecido, então eu finjo que não vi o conhecido, entende? Nada pessoal, é que de vez em quando não tô a fim daquele papo de tudo-bem-como-vai-blá-blá-blá. Não gosto do vizinho do andar de cima, ele é sem noção e dá festas de madrugada. Não gosto que gente que mal conheço encoste em mim. E odeio quando tô de blusinha sem manga e sinto o cabelo de alguém encostando no meu braço. Não faço xixi em banheiro público. E tenho mania com lugares. Algumas casas têm uma energia estranha, então nem volto. Não é em todo lugar que me sinto bem. Não sei receber críticas e sou a minha maior crítica. Já deixei de ir em eventos porque estava chovendo. E já deixei de ir em festas porque achei que estava gorda demais e, sabe como é, suas amigas vão comentar. É que sempre comentam se você engordou e coisa e tal. Mulher é foda.
Não gosto de ficar em cima do muro, por isso tomo partido, tomo decisão. Minhas opiniões são fortes, assim como meu gênio. Tem vezes que sei ser bem ranzinza, principalmente se estou com alguma coisa entalada na garganta ou de saco cheio de alguma situação. Quando algo me desagrada fecho a cara. Ou fico muda. Sou irônica e implicante. Quando pego implicância ninguém me segura. Nem eu. Sou machista e conservadora. E jamais queimaria um sutiã. Acho absurdo mulher viver de mesada. Ou ser sustentada pela família do marido. E acho um absurdo eu ter passado vinte e sete anos sem trabalhar. Acho mais absurdo ainda quem tem mais de trinta e não trabalha. Já fui filhinha de papai e hoje vejo o quanto eu era idiota. Já fui filhinha da mamãe e hoje vejo como eu fui babaca e joguei pela janela oportunidades únicas só porque elas eram desconfortáveis. Não sei passar camisa e não gosto muito de tarefas domésticas. Sou preguiçosa e sei ser arrogante. Não gosto de indiretas, mas de vez em quando dou. Não gosto de baixaria, mas já fiz. Sou uma ciumenta com comprovante de residência. Já tive ciúme até do vento. Já falei mal, já gritei, já xinguei, já briguei e fiz fofoca.
Eu bem que podia ter tentado te impressionar. Dizer que sou uma pessoa bem agradável, amorosa, gentil, bonita e fina. Também podia te contar todas as coisas legais e incríveis que faço diariamente. E podia relatar todas as "bondades" que fiz ao longo dos meus trinta e um anos. Podia, mas não fiz. Eu sou essa mesmo: sem máscara, sem arma, sem retoque, sem nada. Tenho incontáveis defeitos, mas me ofereço inteira: com minhas partes estragadas e boas. Se quiser vem logo pra cá.

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